A revolução pode não ser “tuitada”

Causou alvoroço a notícia de que o PT estaria contratando a equipe de Ben Self (um dos responsável pela campanha online de Barack Obama) pela nada módica quantia de 20 milhões de reais. Com exceção dos profissionais da internet, que viram seu mercado para as eleições de 2010 instantaneamente inflacionado, a notícia não provocará nenhuma alteração no panorama político brasileiro.

Já são muitos os “especialistas” que tentam vender a fórmula mágica que ajudará o pretenso candidato a dominar todas as ferramentas da internet e ainda vencer a eleição, “igualzinho ao Obama”. O PT foi além e contratou um dos responsáveis pela “fórmula” original, pensando talvez que seja o caminho mais fácil é fazer uma transposição automática para a campanha brasileira. Será que Ben Self já conhece a realidade da web brasileira, onde a maioria dos eleitores não tem uma conexão banda larga em casa nem perto dela?

A ideia de que a estratégia online vai ser decisiva nas próximas eleições é verdadeira, mas é preciso que essa afirmação seja recolocada à luz dos valores e dinâmicas características das ferramentas de comunicação pela internet e não como a panaceia que vai eleger – ou derrubar – políticos.

Em primeiro lugar, não será a quantidade de dinheiro alocado para esse tipo de campanha que fará alguma diferença. A campanha de Hillary Clinton também jorrou rios de dólares para a internet e sua campanha possuía presença em todas as ferramentas onde a campanha do Obama também estava.

A grande questão, o grande “ponto de fusão” da campanha online é quando os milhares de e-militantes colocam em prática suas estratégias, que dialogam nas redes e nas ruas. Para cada e-militante, uma estratégia, seja no Twitter, no Orkut ou no bar da esquina. Nesse emaranhado de estratégias, não há milhão de dólares que segure a força multiplicadora dos e-militantes. E o valores que moverão esses e-militantes serão múltiplos e, obviamente, não serão os mesmo que moveram os eleitores estadunidenses na eleição de 2008.

Como diria o próprio Ben Self, a internet não faz nem derruba um candidato. O domínio absoluto das ferramentas de rede social não garantirão uma boa campanha online. Não serão as campanhas milionárias nem as fórmulas mágicas que farão a diferença. A estratégia online, ao contrário das estratégias do marketing político tradicional – que vendem os candidatos como vendem sabonetes – são um constante processo de negociação e renegociação entre políticos e eleitores. Um político sem carisma, que não for capaz de sustentar sua imagem sendo diariamente confrontada com a dinâmica muitas vezes corrosiva das redes e que não seja capaz de provocar um fluxo contínuo entre as redes e as ruas, será apenas mais um perfil no Orkut ou um blog vazio.

O mais estranho em toda essa agitação em torno da internet é que, enquanto um dos fatores mais estimulantes que a campanha online possibilita é a redução dos custos das campanhas políticas, as agências de publicidade estão fazendo os candidatos gastarem mais alguns milhões de reais pela campanha na internet. Por isso, soam irreais as cifras até agora divulgadas: ou estão nos enganando ou não estão entendendo nada. De qualquer maneira, os partidos deverão ter mais cuidado onde investem seu dinheiro, pois o passado recente nos recomenda cautela.

Veja também:

  1. Para estrategistas, 2010 será o ano das eleições nas redes sociais da internet
  2. A Teia do Girassol: Internet, Política e o Partido Verde
  3. As redes do PV
  4. A revolução “twitter”
  5. Como (não) se comportar num debate

Leave A Comment