A Teia do Girassol: Internet, Política e o Partido Verde
Artigo que produzi para a Fundação Verde Herbert Daniel, do Partido Verde. Foi produzido meses antes da entrada de Marina Silva no Partido mas já direciona para o tipo de campanha que pode surgir a partir da mobilização na web:
Segundo Dominique Wolton, a comunicação política é “o espaço onde se trocam os discursos contraditórios dos três agentes que tem legitimidade para se exprimir publicamente acerca da política, que são os políticos, os jornalistas e a opinião pública por meio de sondagens”. Para ele, a comunicação política é o “motor” do espaço público (1).
Com a massificação da utilização da internet e a progressiva incorporação desta como um novo espaço público, alguma coisa está acontecendo com nesse “motor”. O combustível que o alimenta vêm sendo alterado radicalmente pelas ferramentas de rede social disponibilizadas pela internet.
Os exemplos se multiplicam e já não são exclusividades de países ricos: jovens da Moldóvia utilizando o Twitter para organizar manifestações contra o governo; na Guatemala, protestos articulados no Facebook são transmitidos ao vivo de laptops equipados com webcam para todo o mundo; no Líbano, é possível acompanhar a cobertura eleitoral através de fotos, vídeos, textos (via e-mail ou SMS) e mapas enviados por cidadãos comuns.
E mais tantos outros exemplos que já é possível afirmar que se constituem como parte significativa da vida política de diversos países. Por isso é que não é mais o caso de falar sobre como a internet pode ser utilizada para fazer política e sim de como esse contato está reconfigurando as relações entre partidos, políticos e os eleitores. De como esse espaço público vai influenciar (positiva e negativamente) a forma como se pensa e se faz a política daqui para a frente.
As Redes Sociais e as conexões com o “daqui do lado”
As redes sociais da internet são ferramentas de comunicação e interação entre indivíduos. As mais famosas no momento são o Twitter e o Facebook. No Brasil, o Orkut ainda é o campeão de conexões, com o maior número de usuários registrados. Entretanto, ainda que seja importante sempre estar presente nas “redes do momento” (que são conjunturais e muitas vezes passageiras), o mais importante não são as ferramentas e sim a forma como as pessoas as utilizam para atuar politicamente.
São nesses ambientes que tem se desenvolvido tipos de ação política de uma forma ainda não observada. Enquanto a internet e sua imensidão são vistas como uma forma espantosa de conectar pessoas a milhares de quilômetros de distância, para a ação política o mais interessante são, paradoxalmente, as possibilidades de conexão com quem está próximo, com quem pensa parecido em algumas questões. A facilidade de encontrar alguém próximo que compartilha preocupações, esperanças e afinidades é o que está alterando radicalmente a forma de se pensar e agir politicamente.
Na comunicação produzida pelas redes sociais da internet, o conceito clássico de opinião pública sai das pesquisas e se dilui entre múltiplos atores, conectados de formas diversas. Essa diluição, longe de ser sinal de enfraquecimento, é a constituição de um novo modelo de participação, diferente das grandes ideologias do século XX, onde grupos se moviam por identificações bem marcadas como marxistas, social-democratas, liberais, etc. Agora, as categorias que emergem para a atuação política são outras. A ação política é significada e ressignificada constantentemente.
O “E-Militante” e a morte do Marketing Político
Durante a campanha do Gabeira à prefeitura do Rio em 2008, cerca de 10.000 voluntários contribuiram para difundir a campanha na rede e nas ruas. Militares reformados, adolescentes da periferia, artistas de Ipanema, ex-militantes de partidos tradicionais de esquerda e integrantes orgulhosos da velha direita carioca, eram tipos que encontraram na campanha um caminho para atuar politicamente em conjunto. Da luta por uma política mais transparente às demandas ambientais, as conexões são transversais. Sai o militante engajado (“de carteirinha”), entra o “e-militante”, que não quer mais ser convidado a participar do espetáculo somente como espectador. Quando fala de meio ambiente, ele incorpora o discurso na sua prática cotidiana. Não é mais um adesismo a uma cartilha ideológica, é a ação política como continuidade do seu modo de vida.
Com isso, as estratégias de marketing político já não serão mais tão eficientes a ponto de definir a imagem de um candidato (diria mesmo é que o marketing tradicional está com os dias contados!), que vai ser agora negociada com o o eleitor de forma muito mais intensa e polifônica do que anteriormente. Se antes, era o horário político e as peças de marketing os definidores dessa imagem, agora essa “imagem oficial” sofrerá um constante processo de avaliações e reavaliações na rede. A internet reforça (e também atualiza, reforma e ressignifica) os laços entre representante e representado. E Isso vale tanto para a relação “candidato x eleitor”, quanto para “partido x militantes/simpatizantes”.
Networking e Broadcasting
Além de facilitar o trabalho em rede entre os “e-militantes“, a internet traz uma nova dimensão na transmissão das informações. Enquanto no Rádio e na TV a transmissão é uma produção oficial dos partidos/candidatos ou das grandes emissoras, nas ferramentas sociais da internet elas são diluídas em milhares de broadcasters (transmissores).
Dessa forma, temos dois conceitos-chave para se pensar a comunicação nas redes que são os termos (em inglês) networking e broadcasting. O networking é a capacidade dos atores envolvidos numa campanha ou num partido de atuarem coletivamente. O broadcasting é a transmissão ou retransmissão de informações. Mas, enquanto na comunicação tradicional existem grandes broadcasters que difundem a informação para milhares de pessoas, na internet cada usuário é um broadcaster. São milhares desses broadcasters transmitindo e retransmitindo (e de certa forma, configurando ou reconfigurando) as informações que chegam até ele. E ele pode passar para 10, 20, 100 pessoas, que vão continuar (ou não, se não for uma “peça” de muito sucesso) o trabalho de broadcasting.
E nem sempre é o conteúdo oficial que ganha força. O vídeo mais visto no YouTube da campanha de Barack Obama (e um dos mais vistos da história do site) foi o “Crush On Obama” ( http://www.youtube.com/watch?v=wKsoXHYICqU ) de uma personagem conhecida como ObamaGirl, criada fora da campanha oficial. Uma doação de sangue em massa foi um dos eventos mais significativos da campanha do Gabeira, surgiu de uma ideia no Orkut. Na mesma campanha, um e-mail contendo uma ideia de mobillização enviado para 15 pessoas, se transformou numa manifestação de mais de 1000 pessoas.
A campanha política é mais broadcasting que networking. Entretanto, as pessoas que fazem networking durante a campanha são multiplicadores de outro nível, mais participativos, e se constituem como pontos fortes de retransmissão (ou seja, de broadcasting!). É uma espécie de lei-de-ferro das redes: pouco fazem muito, muitos fazem pouco.
Ou seja, majoritariamente, a militância ocorre individualmente/atomizadamente (essa é uma característica marcante do “e-militante”) muito mais do que coletivamente. Dos 10.000 voluntários da campanha do Gabeira, cerca de 300 participaram presencialmente de reuniões e ações coletivas. A grande parte atuou individualmente. A militância do “e-militante” faz-se nos espaços que ele frequenta, seja no bar, na escola ou no orkut. Nesse caso, o broadcasting é mais visível que o networking, ainda que o segundo tenha uma força multiplicadora mais orgânica e comprometida.
O papel da comunicação partidária
No meio desse mar de conexões, o papel da comunicação partidária é gerir essas individualidades, gerir o encontro político destas individualidades com o partido (que pressupõe ações coletivas), articulando o broadcasting com o networking. Para isso, faz-se necessário o estabelecimento de condições para a militância via web (quer abranjam o broadcasting e o networking). O site oficial do partido/candidato deve funcionar como um agregador do conteúdo gerado pelo partido/candidato (blog, fotos, vídeos) e pelos usuários das redes sociais (orkut, twitter, facebook), criando um diálogo e uma verdadeira interação entre os dois tipos de conteúdo. As pessoas devem ser parte do processo, cada “e-militante” é um broadcaster. Dessa forma, a campanha funciona como produtora de conteúdo para municiar os milhares de broadcasts, que vão se apropriar e replicar as informações de múltiplas formas.
Mesmo sabendo que não existem “fórmulas mágicas” (e muitos aparecerão tentando vender um “sistema igual o do Obama”), não é mais possível conceber a gestão da comunicação no mesmo formato tradicional, que internamente foca na difusão de informação dos dirigentes e filiados e externamente na relação (sempre tempestuosa) com a imprensa. A presença da internet força uma alteração substancial na forma como a comunicação partidária deve ser gerida, desviando o foco da mera assessoria de imprensa (uma preocupação que permanecerá, cada vez mais defensiva e menos produtora de espaços na mídia) e do propagandismo alienante para uma comunicação mais aberta, orgânica e voltada para as redes sociais.
E não é meu interesse aqui prestar uma reverência incondicional e acrítica à Internet ou ainda considerá-la na vanguarda de uma revolução eminente, nem tampouco a panacéia que resolverá todos os problemas de representatividade da política mundial. Ao contrário, devido ao caráter aberto da rede, os efeitos colaterais são muitos: a política mal-intencionada ganha preciosos espaços online, contribuindo para a falta de razão que muitas vezes minam experiências interessantes de comunicação e participação; a velocidade de informação nem sempre é a forma mais eficiente de produzir opiniões embasadas e o comentário a priorístico ganha força; boatos podem ganhar força e te fazer perder muito tempo para restabelecer (ou ao menos equilibrar a intensidade do ataque) a verdade.
Os Verdes nisso tudo
Mesmo assim, as possibilidades que se abrem com a utilização em massa de ferramentas de redes sociais pela internet não podem ser descartadas nem encaradas como um meio meramente propagandístico. Para nós, Verdes, é um momento especialmente interessante. A colocação da questão ambiental no centro de debate político internacional e a adesão de outros partidos e credos políticos às preocupações ecológicas, longe de nos levar a um esvaziamento, nos recoloca como principal ponto de referência na formulação de saídas para a crise economica-ambiental. Para nós, a questão ambiental é uma questão de valores, não um mero apêndice oportunista eleitoreiro.
Uma presença honesta na internet pode significar a formação de uma espécie de pólo de atração, interação e participação para centenas de milhares de “e-militantes” que desejam atuar politicamente a partir dos problemas levantados pelas questões ambientais.
Por isso, a concepção de um novo desenho para o site oficial, que ligará os conteúdos oficiais com os conteúdos produzidos nas redes sociais onde já marcamos presença, como Twitter, YouTube, Flickr e Orkut é a prioridade deste ano, objetivando a criação de múltiplos pontos de conexão com o Partido Verde.
Também estamos experimentando a RedePV ( http://redepv.ning.com ), que é a rede social do Partido Verde (numa plataforma Ning – http://ning.com – ferramenta que permite a criação de redes sociais customizadas), que funciona como um mecanismo de fortalecimento das relações sociais entre filiados. Ainda em fase embrionária, a ideia é transformar essa rede num movimento irresistível de ampliação da participação, intercâmbio de informações e geração de ideias, fazendo das interações entre filiados um combustível (limpo!) na construção de um novo espaço partidário, onde as pessoas possam se unir mais por afinidades em temas de interesses do que por alianças de poder. As matérias publicadas pelos filiados na RedePV já entram em lugar de destaque no Blog do PV e a ideia é fazer com que isso seja aprimorado e aprofundado para estimular a descentralização da produção de conteúdo.
Os próximos anos serão de profundas transformações na forma como as pessoas se relacionam com a política e irão separar os partidos e políticos que estarão utilizando a internet como ferramenta meramente propagandística daqueles que estarão construindo novos laços de representação, participação e militância.
(1) WOLTON, Dominique. Pensar a Comunicação. Editora Universidade de Brasília, 2004. .
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