Barulhinho Bom

Crítica publicada hoje no jornal O Globo, sobre a propaganda eleitoral do Gabeira:

Gabeira no ar

Vejo certos programas de candidato e fico procurando o Tatu, aquele anãozinho da Ilha da Fantasia. Nestes programas, tudo é lindo, tudo é entusiasmo, tudo é over, tudo é branquinho… tudo parece de plástico. A campanha de Fernando Gabeira (PV) tem causado um ruído no horário eleitoral. Não existe a menor possibilidade de eu procurar o Tatu. Gabeira causa ruído com a normalidade. Enquanto a maioria dos candidatos investe no fundo neutro, abusando do azul e das camisas em tons claros, Gabeira entra no ar com a marchinha “Cidade Maravilhosa” mesclada com sons de rua, bailes funk, tiroteios. Um clipe de imagens cariocas aparece alvejado por balas de fuzil. Um outro filme mostra os nomes de vítimas fatais da violência transformados em uma seqüência de cruzes. O clipe com o jingle da campanha é dinâmico, e efeitos gráficos com nomes de bairros da cidade se sobrepõem a imagens do candidato no corpo a corpo com eleitores. Gabeira também não tem um estúdio arrumadinho, impessoal. A sala de onde fala com o telespectador tem mesa com objetos, luz natural – se não me falha a memória, tem até abajur. O tom da conversa é informal, direto, sem tantas palavras de efeito ligadas na tomada, com empolgação 220 volts. Gabeira fala devagar e baixo, como quem conversa e não como quem convence. Pode soar estranho ter tanta normalidade no meio de cenários e edições que nos transportam para paraísos artificiais.

Por isso o programa de Gabeira é um ruído.

Barulhinho bom.

Veja também:

  1. Bem-me-quer, mal-me-quer: os impasses do Girassol e um chamado ao bom senso
  2. Reinventando campanhas
  3. Corpo a corpo
  4. Tempo eleitoral
  5. E-Campanha

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