As lições da Colômbia
Publicado originalmente na revista Sou Rio – VoluntáRIOs.
Alguma coisa acontece na Colômbia. É exatamente no país conhecido por sua guerrilha anacrônica e inaceitável e um dos centros mais beligerantes da política anti-drogas estadunidense, que observamos o surgimento de um partido fincado em movimentos cívicos independentes e que se pretende transformar numa das principais forças político-eleitorais da Colômbia.
Todos ouviram falar da inacreditável campanha de Antanas Mockus na Colômbia esse ano. Foi ao segundo turno com o candidato governistas e sacou 21% dos votos (a maior porcentagem de um candidato presidencial da história dos verdes – e depois veio Marina e seus 20% e nesse momento está na América do Sul os dois PV´s mais votados do mundo, fato inédito e profundamente significativo, o que nos impõe uma série de reflexões de como foram construídas essas votações). E aqui eu pretendo brevemente falar do processo que levou a essa onda e das tentativas de se transformar em poder político a força da votação que o Partido Verde recebeu naquelas eleições. E conhecer melhor a experiência colombiana nos ajuda a entender um pouco de um projeto político levado a cabo por uma aliança entre cidadãos, o que pode nos inspirar e ensinar.
O candidato a Vice-presidente na chapa verde em 2010 foi Sergio Fajardo, popular ex-prefeito de Medellin, líder do Compromiso Ciudadano, uma aliança política nacional de cidadãos interessados. O Compromiso surgiu em Medellin em 1999, quando um agrupamento heterogêneo de 50 líderes locais, receosos da política tradicional decidiu se unir em torno de objetivos comuns e práticos: quais sao os principais problemas que temos na cidade? Quais as possíveis solucoes? Que acoes devem ser tomadas para implantar tais solucoes? Naquele momento, Medellin era considerada uma das cidades mais violentas do mundo, dominada pelo narcotráfico e pela corrupção dos agentes públicos.
Decidiram construir a política desde seus problemas praticos, com objetividade e sem perder tempo com discussoes ideológicas mais aprofundadas. O que me remete ao que chamo de “novas conexões da política”, onde as pessoas se movem mais por valores universais (como a ética e a transparência) do que por cartilhas ideológicas e dogmáticas.
O significado maior do Compromiso sempre foi demarcar com clareza de que são os meios que justificam os fins, subvertendo a lógica perversa da política tradicional onde “os fins justificam os meios”. Ou seja, a transparência e pluralidade dos processos de discussão e deliberação do grupo são mais importantes ainda do que os fins que se almeja chegar. De que é na prática cotidiana que se constroi a participação cidadã.
Depois de perder a primeira eleição em 2000, Fajardo foi eleito prefeito de Medellin para o período 2004-2007. Somente com o apoio do Compromiso, se os partidos políticos tradicional. A gestão de Fajardo é reconhecida internacionalmente como uma das mais interessantes. Com um gasto público voltado para a educação (40% do orçamento da cidade foi invertido para esse fim) e para a construção e revitalização de espaços públicos, o Compromiso alterou profundamente Medellin, reduzindo a criminalidade e aumentando a auto-estima da população. Fajardo dizia que os “prédios mais bonitos devem estar nas áreas mais pobres” e direcionou as principais construções de prédios públicos como escolas, galerias de arte e bibliotecas foram realizadas nas áreas mais pobres da cidade. Fajardo terminou o governo com mais de 80% de aprovação e o Compromiso elegeu seu sucessor.
Como prefeito melhor avaliado do país, o Compromiso (agora organizado nacionalmente) lançou Fajardo candidato a presidente. Mas um outro movimento cidadão, baseado nos mesmos princípios éticos (principalmente a máxima “recurso público é sagrado”) se organizava em Bogotá.
Antanas Mockus, outro matemático e popular político do país, foi prefeito de Bogotá por duas vezes (de 95 a 97 e entre 2001 e 2003, entrou para o Partido Verde juntamente com outros dois ex-prefeitos de Bogotá de seu pequeno grupo político, Lucho Garzon e Enrique Peñalosa. Os 3 são considerados os melhores prefeitos da história da cidade e, assim como em Medellin, promoveram uma recuperação sem precedentes na gestão pública da cidade. Em 2010, Mockus, Garzon e Peñalosa promoveram então um processo de prévias abertas para decidir qual dos três seria o candidato a presidente verde. Mockus venceu, já engatando o que depois ficaria conhecido como a “Onda Verde”. Ao marcar as prévias para o mesmo período das eleições legislativas e atraindo a atenção da sociedade, os verdes tiveram um excelente resultado eleitoral e que foi interpretado por analistas como o principal motivo do fracasso do Compromiso naquelas eleições.
O Compromiso havia lançado candidatos ao legislativo em todo o país mas não conseguiram eleger nenhum representante e ainda viram reduzidas suas chances de se transformar num partido político. Ainda assim, Fajardo conseguiu as 700.000 assinaturas necessária para sair candidato a presidente. Mas com o revés nas eleições legislativas e a aceitação pública de Mockus, o Compromiso decidiu por integrar a chapa verde indicando Fajardo como vice.
E um estrondoso movimento de cidadania, catapultado principalmente pela ampla mobilização online (a página de Mockus no Facebook assumiu o posto de uma das 10 maiores do mundo), principalmente por segmentos da classe média e da juventude. Mockus chegou a liderar a corrida no primeiro turno, mas o amplo poder de penetração do uribismo nas camadas rurais e uma poderosa campanha negativa e de medo, provocou um refluxo na votação de Mockus que acabou no segundo turno com 21%. Mas as consequencias para a política colombiana permaneceram e o Partido Verde emergiu como força relevante.
E então começaram as discussões sobre como transformar essa mobilização cidadã em projeto político. E o primeiro passo acaba de ser dado, com a entrada do Compromiso e de Fajardo ao PV.
E o maior desafio que se apresenta no momento é a construção de um partido como espaço de pluralidades. Um partido que recolhe o espírito de uma cidadania livre, que se expressa de múltiplas formas, que sonha, que enfrenta máquinas poderosas com o poder das ideias, do conhecimento, das convicções, da transparência e da inovação permanente. Com mais espaços de deliberação, representação e participação para os ativistas. A política do e com o ativista comprometido é considerada a chave para que o partido aprenda a crescer a partir do fenômeno eleitoral de 2010. Dar um sentido político a “onda verde” que não perca as principais conquistas do movimento, que não sufoque a vitalidade de um movimento cívico-cidadão sem precedentes na história da política colombiana. E que faça isso sendo capaz de lançar as bases para a conquista do poder institucional. Como diz Fajardo, o Partido Verde “é uma reunião de expressões cívicas independentes”.
E esse mês, como símbolo da entrada do Compromiso no Partido, lançaram o “Carimbo Verde”, que é uma espécie de “selo de qualidade” para candidatos nas eleições municipais de 2012. Os candidatos com “carimbo verde” devem estar comprometidos com as premissas básicas do movimento, levando a um compromisso de transparência e luta contra a corrupção.
Minha ideia aqui foi a de exemplificar o tipo de política que queremos e mais ainda de como isso se dá na prática. E de como isso é possível pois já saiu da esfera dos desejos para o campo da realidade.
Fabiano Carnevale é Secretário Nacional de Comunicação do Partido Verde.
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